O Trágico Fim de Amadeu José
Passava os dias embravecido, aperreado. Tinha medo de morrer.
Numa noite de dezembro, enquanto as crianças do Riacho Seco atiravam bombinhas e saltavam em fila a fogueira da festa do padroeiro, mataram um homem. Era Amadeu, que criava bois nas Cajazeiras e vivia disso e não tinha contas a receber nem dívidas a pagar, exceto com Manoel Jacó, coronel e irmão do prefeito, que no último inverno mandara tombar sua cerca e queimar as varas num fogo alto que descontrolou-se e engoliu a mata esbranquiçada, os pés de angico e as juremas.
Naquele dia Amadeu José acordou aos gritos: Aparecida lhe puxava pelos braços, pelos cabelos, por onde alcançasse, levantou meio dormindo e escutou:
— Corre, criatura, homem, é fogo.
Então correu. Chegou ao alpendre num salto e a fumaça já lhe esfolava os olhos quando tropeçou por entre os bezerros apinhados no fim da escada, feito cachos de algodão. Viu a terra aberta, violada, sangrando em altas labaredas, mas demorou a entender que lá longe — por trás da cerca — uma das vacas lhe olhava, reclamava a injustiça, se desfazia viva entre gritos de horror que o fogo engolia e ele quase não escutava. No céu, trapos escuros flutuavam em voltas concêntricas, urubus.
Com isso começou sua desgraça. Procurou o coronel para satisfações, mas nem em casa nem na fazenda nem em canto nenhum: o homem se apagou no vento. Quando Amadeu disse que Manoel Jacó era um bosta e não valia mais que bosta, atraiu atenção e precisou defender-se: esmurrou um de seus cabras na feira do queijo e o fez cair por sobre a bancada derrubando os discos de coalho que giraram feito moedas. Ainda naquela manhã a cidade agitou-se em burburinhos espumosos e antes mesmo que Amadeu chegasse em casa chegou para ele um recado funesto: tinha sentença lavrada nas costas, era um homem jurado de morte.
Passou o dia embravecido, aperreou-se. Morreria. Manoel Jacó certamente estava possesso, mandaria o jagunço arrancar-lhe a cabeça, ou envenenar-lhe a comida, ou matar-lhe à faca, à bala, a pauladas.
Precisava armar-se. De noite, procurou Vicente Letreiro, caseiro do sítio vizinho, que plantava abacates e atirava tão bem a ponto de conseguir varar à bala as iniciais do próprio nome, e só assim sabia escrever. Comprou com ele um revólver miúdo, fabricação nacional mas muito bom, compadre, vermelho de ferrugem, trinta-e-oito, o calibre, compadre. Pagou a prazo e rejeitou quando o caseiro lhe ofereceu uma Winchester cano longo calibre doze, ou um punhal oito polegadas, cabo de osso:
—Seis balas vão sobrar, compadre.
Saiu com a arma no cós da calça. Agora armado poderia encontrar Manoel Jacó e ter resposta à altura. Encontraria o coronel no caminho da fazenda ou dentro da prefeitura e seu destino era certo, antes que percebesse teria o peito chumbado, a cabeça, tudo, depois jogaria o corpo no açude; o cadáver, pesado de balas, afundaria feito uma pedra, viraria silêncio no fundo d'água.
Animou-se só de pensar, mas foi e voltou do Riacho Seco e nada de Manoel Jacó, ficou enfurecido, bateu os pés, gritou com os bichos. Não lhe sobrava outra opção: quem não caça no campo arma isca no quintal. Chegou em casa, a mulher falava umas coisas sem importância, afastou-a e pegou na despensa duas garrafas de vidro, três latas de leite nas quais colocou sonoras pedras, umas dez estacas de angico da velha cerca.
As estacas seriam para o buraco perto da pitangueira, coberto com folhas e terra seca fariam uma armadilha fatal; as latas, pregadas na porteira, seriam seu alarme; quebraria as garrafas e com os cacos de vidro e muita cola faria arapucas traiçoeiras. Armou na varanda uma rede e a partir de daquele momento dormiria ali mesmo, de sandálias nos pés e revólver a tiracolo, pronto para fosse o que fosse.
No primeiro dia nada aconteceu, no segundo tirou do buraco um tatu e depois outro e no terceiro dia escutou um berro perto do pé de pitangas e correu aos pulos, arma em punho, apenas para voltar de lá sob os gritos de Aparecida e a vergonha inescapável de ao longo de três dias ter capturado apenas um casal de pebas, um cachorro amarelo costelento e um miserável bezerro dos poucos que restavam.
A decepção lhe secava por dentro, a vigilância lhe tomava até mesmo o tempo banhar-se, de comer. O feijão e o caldo de arroz agora chegavam à boca feito coisa morta. Aparecida ía e vinha da cozinha: alho, cebola, sal grosso e folhas de louro, não adiantava, era como mastigar vento.
Perdia a fome porque tinha raiva. E tinha raiva agora não só de Manoel Jacó mas do mundo inteiro, porque o mundo inteiro o rejeitava, e não havia mais quem sentasse ao seu lado na missa, quem com ele bebesse e com ele jogasse dominó aos sábados. Por isso esqueceu tudo isso. Mas então até mesmo Aparecida, que antes tolerava suas manias com a paciência ferrenha da qual só as mulheres de sua idade eram capazes, voltava-se agora contra ele em gestos bruscos de animal arisco, de cabra acoada na ribanceira, uns olhos faiscantes que lhe faziam baixar a vista, curvar as costas.
Depois de duas semanas a mulher irritou-se ao tropeçar e quase cair numa de suas arapucas. Houve briga. Amadeu tinha olhos de febre e barba por fazer, fedia mais que os próprios bodes, estava louco de medo e ela não aguentava mais: lançava perguntas que ficavam sem resposta até ouvir do marido que voltasse mesmo para a mãe, para o pai, que fosse aos caralhos porque não lhe importava mais. Ela escutou e foi-se embora sem avisar; ele jogou suas roupas pela janela, puta, demônia.
Depois disso, parou de dormir. Virava a noite sussurrando com as paredes, perdido ele próprio em longas entrevistas que o deixavam sem palavras; quando amanhecia cochilava. Faca, facão e um monte de tiros. Saltava da rede de mau jeito, enlinhava-se: era morto em sonho. Sonhava umas coisas horrorosas. Acordava todo mijado e sem um arranhão.
Àquela altura, queria que a jura de morte morresse ela própria à distância, não havia uma taxa, uma multa, um passe de vida? Queria clemência. Escrevia longas cartas ao coronel e colocava na caixa de correio, mas até mesmo o carteiro deixou de passar, de modo que os envelopes se empilhavam lá dentro ou eram levados pelo vento e viravam comida de bichos.
Os meses passaram e perto do Natal Amadeu notou que a raiva seca que lhe queimava o peito era agora um memória distante transmutada em brasa fria. Foi quando começou a afinar, a carne sumindo dos ossos até a pele esticar feito couro seco e o bucho encostar nas costas, a calça dançando frouxa na cintura, quase caindo. Era mais magro que seus bezerros, e porque lhe faltava força arrastava as horas estatelado na rede, feito já o tivessem matado.
Desnutrido e só, seus dias se misturavam às noites e o mundo de Amadeu virava um redemoinho de sensações absurdas, onde o fogo da cerca queimava de novo e risos de criança escapavam por dentro da fornalha. Via vultos no mato, escutava o tilintar das latas na porteira e corria até lá, dava um tiro pro alto, Vem, filho da puta, mas sua voz enfraquecida esfarelava no ar e era carregada pela brisa da madrugada, assim como as cartas que escrevia.
Na noite da festa de Santo Inácio, quando a fogueira do Riacho Seco lambia o céu e o povo se embebedava, Amadeu finalmente saiu de casa. Trôpego e seminu, as mãos tremiam com o peso do revólver e os pés o levavam não sabia para onde. Chegou ao centro da cidade e cambaleou por cima dos batentes, das barracas, arrancou risos nervosos. Procurava Manoel Jacó, mas nada dele; encontrou, isto sim, um povo de olhos vermelhos, que se escondia em cochichos abafados para em seguida cuspir no chão e desviar a vista, feito lhe atacassem as vergonhas alheias.
De repente, não só os olhos, mas a pele e o corpo inteiro daquela gente se avermelhava, e agora eram todos Manoel Jacó. Sua dor multiplicava, sentia o peito encolher-se e as pernas fraquejarem. Era um fiapo de homem. Temendo a agressão que poderia vir de todas as partes, encostou-se na parede da prefeitura e deixou os pés deslizarem. Sentado, escondeu a cabeça entre os joelhos, esperando que também o deixassem de ver e tudo sumisse, como sumiu; porque logo Amadeu José adormeceu ali e não acordou mais, nem quando no outro dia lhe jogaram um balde de água barrenta e mandaram que saísse, que morresse noutro lugar.


Eu estava ativamente procurando por contos no Substack, mas não esperava mesmo encontrar um tão bom logo de primeira. Você escreve muito! Adorei o texto
Uau, conto muito interessante. Adorei sua escrita.